terça-feira, outubro 28, 2008

Engajamento das Universidades com o ensino básico é fundamental, apontam especialistas

27/10/2008 - Após o chamado do presidente da SBPC, na abertura da Reunião Regional da entidade em Maceió, para que as universidades se envolvam fortemente no esforço pela educação no país, a relação do ensino superior com a melhoria da qualidade da educação básica foi tema de discussão

Daniela Oliveira escreve de Maceió para o “JC e-mail”:

Em mesa-redonda realizada nesta quinta-feira, os secretários de Educação de Alagoas e do Sergipe fizeram críticas ao atual sistema de ensino básico e de formação de professores e apresentaram as iniciativas dos dois estados para melhorar a situação local. Eles concordam que é preciso um esforço emergencial para manter os estudantes nas licenciaturas e aumentar a qualidade da formação desses futuros docentes, com envolvimento de diferentes setores.

“Uma escola básica de qualidade para todos depende não somente das secretarias de Educação ou dos professores que estão no ensino fundamental ou médio, mas também de outros setores da sociedade, como as universidades e os centros de formação de professores”, disse José Fernandes de Lima, que dirige a secretaria de Educação sergipana. “Esse deixou de ser um problema da educação básica, está relacionado com o futuro de nosso país, considerando a necessidade de mão-de-obra especializada.”

Lima, que é ex-secretário de Programas da Capes, mencionou dados da agência para mostrar que, na velocidade de formação atual, o país levará mais de 80 anos para suprir a demanda por professores de Física. Para ele, este é o principal desafio das universidades brasileiras na atualidade.

“Quando avaliamos os diferentes níveis de ensino, vemos que a eficiência e o rendimento da pós-graduação é muito maior que o da graduação, que por sua vez é muito mais eficiente que a educação básica. Já encontramos o caminho para a formação de pesquisadores, precisamos agora nos voltar para os professores”, aponta.

A secretária de Educação de Alagoas, Márcia Valéria Santana, concorda que a questão deve ser encarada de forma conjunta. “Essa transformação não deve ser primeiro na universidade, nem primeiro na educação básica. Tem que ser em conjunto. E é preciso pensar na base, porque os alunos chegam ao ensino fundamental mal formados, às vezes semi-alfabetizados. A questão é: quem forma os professores que estão alfabetizando?”, adverte.

Presente ao debate, o presidente da SBPC, Marco Antônio Raupp, voltou a ressaltar que é fundamental que a Universidade assuma esse papel para a superação desses obstáculos para o pleno funcionamento da escola básica.

Formação inicial e continuada

Os especialistas alertam ainda que é preciso atentar não apenas para a quantidade, mas também para o nível de qualificação dos profissionais do magistério. Um levantamento da Secretaria de Educação de Sergipe mostrou que a maioria dos professores da educação básica enquadra-se em uma das seguintes situações, que merecem igual preocupação: os que não têm curso superior; os que têm curso superior mas não são licenciados; os que ensinam disciplinas para as quais não foram licenciados; e os que são licenciados, ensinam suas disciplinas mas têm deficiência na qualidade, e necessitam de formação continuada.

O uso da educação a distância pode ser um recurso para sanar essas deficiências. José Lima contou que, na época em que era reitor da Universidade Federal do Sergipe, desenvolveu o Programa de Qualificação do Docente (PQD) que inclui cinco pólos no interior, além de um na capital. Nos finais de semana, os professores da UFS eram deslocados para os pólos.

“Com esse programa, ouvi depoimentos como ‘Sou o primeiro professor formado deste município’. Muitos secretários municipais de Educação do interior foram formados nesse projeto. Foi muito gratificante”, explicou.

Mas Lima ressaltou que, no primeiro momento, houve muita resistência dentro da Universidade ao projeto, que formou no início do ano os participantes de sua terceira edição. “Existia um preconceito por parte de alguns professores, que diziam que os alunos não prestavam, que não iam aprender. E por isso vamos deixar como está?”, questionou.

Em Alagoas, a secretaria de Educação está em processo de criação de um consórcio com a Ufal, a universidade estadual (Uneal) e a Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), com objetivo de formar, até 2016, 20 mil professores do estado que estão em sala de aula e não têm a graduação. O projeto é criar 15 pólos no interior do estado, mais os sete campi da Uneal e os seis da Ufal.

Segundo a secretária Márcia Valéria, o objetivo será não só passar o conteúdo teórico dos cursos de graduação, mas também ensinar a traduzir esse conteúdo para ser passado aos alunos da escola básica. “A Universidade tem que enxergar que ela precisa dar esse tradutor aos licenciandos, aos professores que vão formar essa juventude que hoje está desamparada”, afirma.

Pibid

Outra iniciativa que pode facilitar a parceria entre Universidades e o ensino médio é o Programa de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), previsto no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e instituído pelo MEC, por meio da Capes, no final do ano passado. No último dia 17 de outubro, a agência divulgou a primeira relação de projetos aprovados, que pode ser conferida no link http://www.capes.gov.br/images/stories/download/bolsas/Projetos_Aprovados-PIBID_1Publicacao.pdf

O secretário José Lima alertou, no entanto, que é preciso fazer com que o Pibid funcione efetivamente, de forma menos burocrática. Na sua avaliação, uma alternativa mais interessante seria conceder bolsas diretamente para os departamentos, que repassariam aos alunos das licenciaturas. “A questão emergencial é segurar os alunos na licenciatura, e com uma simples bolsa facilitaríamos essa fixação. O governo tem que ter coragem para fazer isso”, disse Lima.
Fonte: Jornal da Ciência

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